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Árvores da Amazônia são “chaminés” de metano mesmo com solo seco

Sabe-se que florestas alagáveis emitem mais o gás na época das cheias, mas um novo estudo conduzido por ingleses e brasileiros mostra que a liberação ocorre também no período seco

Estudos já demonstraram que, quando o solo está submerso, as árvores situadas em áreas alagáveis da Amazônia podem atuar como “chaminés” de gás metano (CH4) para a atmosfera terrestre. Mas é possível que elas também tenham um papel significativo nas emissões regionais de CH4 mesmo quando as planícies não estão inundadas, sugere uma pesquisa publicada na revista científica Philosophical Transactions of the Royal Society.

A hipótese é de uma equipe internacional de pesquisadores, que incluiu a participação de cientistas da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O grupo analisou os índices de emissões de metano em áreas localizadas nas várzeas de três grandes rios na região central da bacia amazônica — rios Negro, Solimões e Tapajós —, entre abril de 2017 e janeiro de 2018.

Para coletar o fluxo de ar nessas áreas, eles instalaram pequenas câmaras portáteis de gases de efeito estufa em volta dos troncos de 108 árvores e dentro das superfícies aquáticas. Ao analisar os índices de concentração de CH4, os pesquisadores verificaram que o metano emitido nos pântanos era canalizado pelas árvores não só durante os períodos de alagamento, mas também quando o lençol freático estava abaixo da superfície do solo.

O estudo estima que as árvores em áreas inundadas contribuem com aproximadamente de 12,7 a 21,1 teragramas de CH4 por ano para a atmosfera, mas as espécies arbóreas nas margens da planície de inundação ribeirinha da Amazônia também teriam um papel importante nessa conta: seriam responsáveis por um valor de 2,2 a 3,6 teragramas do gás metano emitido anualmente na região.

Como isso acontece e por que os dados importam

Em áreas úmidas onde não há árvores, o metano normalmente é consumido pelo solo antes de chegar à superfície. Em pântanos úmidos florestados, no entanto, os pesquisadores sugerem que as raízes das espécies arbóreas poderiam estar levando o gás “de carona” para a atmosfera. Ele seria ventilado para a superfície a partir dos troncos das árvores, mesmo quando produzido vários metros abaixo do nível do solo.

Mas por que isso importa? O metano é um dos principais gases de efeito estufa. Os modelos de medição do gás normalmente presumem que, nos pântanos, ele só é produzido quando o solo está completamente inundado e submerso.

Por isso, os resultados do estudo podem ajudar a melhorar os modelos de quantificação do gás, que poderiam estar subestimando o papel das emissões de CH4 para além das terras inundadas em ecossistemas como a bacina amazônica mundo afora.

Trata-se de um processo natural. E isso não significa que as árvores são ruins para o clima e deveriam ser cortadas. Na verdade, na maioria dos casos, estima-se que sua capacidade de armazenamento de carbono supera facilmente suas emissões de metano.

“Nossos resultados mostram que as atuais estimativas de emissões globais estão perdendo uma parte crucial do panorama”, avalia Vincent Gauci, professor da Escola de Geografia, Ciências da Terra e Ambientais da Universidade de Birmingham e principal autor da investigação, em nota. “A partir de agora, precisamos desenvolver modelos e métodos que levem em consideração o papel significativo desempenhado pelas árvores na emissão de metano em áreas úmidas”.

Esta matéria faz parte da iniciativa #UmSóPlaneta, união de 19 marcas da Editora Globo, Edições Globo Condé Nast e CBN. Saiba mais em umsoplaneta.globo.com.


Revista Galileu                  Foto: Amazonia.org
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