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Satélite flagra loteamento ilegal que ameaça terra indígena e revela como começa o desmatamento da Amazônia

Imagens registram a abertura de estradas para lotear área de preservação, onde derrubar a floresta é proibido por lei; lotes seriam usados para plantação de soja ou abertura de pasto

No município de Querência (MT), os indígenas Kĩsêdjê vivem, há pelo menos cinco anos, tentando escapar dos perigos do avanço do agronegócio. Mas agora o risco mora bem ao lado: uma fazenda, vizinha à Terra Indígena Wawi, que já foi embargada e multada por desmatamento ilegal no ano passado. E o proprietário da área, Roberto Zampieri, diz que assim que tiver autorização dos órgãos competentes vai seguir derrubando a mata nativa.

“Eles [os indígenas] já têm muita coisa, muita terra, chega”, diz Zampieri, um produtor rural conhecido na região, que também é advogado de empresários do setor no Mato Grosso. Ele diz que não desmatou, alegando que o corte das árvores foi feito para construir a sede e abrigos para os trabalhadores. “Foi uma área muito pequena”.

Não é o que mostram as imagens do satélite Planet (do MapBioma) e de drones tiradas em meados do ano passado. As fotos revelam grandes clareiras abertas em meio à floresta além de estradas que não levam a um destino, servindo para delimitar três lotes, cuja área total equivale à de 1.300 campos de futebol.

O desmatamento ilegal foi confirmado por uma vistoria ao local de técnicos da Secretaria do Meio Ambiente, que embargaram a área e multaram Zampieri em R$ 627 mil por desmatamento ilegal. Entre as infrações estavam desmatar em áreas próximas a rios e a veredas (vegetação típica da região), descumprindo assim o Código Florestal. Além disso, o desmate ocorreu dentro da chamada área de amortecimento de zona indígena, uma faixa onde são proibidas atividades exploratórias – como supressão de floresta, mineração ou pulverização de agrotóxico –, para impedir que os impactos ambientais cheguem às aldeias.

“As imagens mostram como as estradas foram sendo abertas ao longo dos meses. São duas estradas que não levam a lugar nenhum, o que deixa claro que trata-se de um loteamento”, explica Ricardo Abad, analista de geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA). “Se não houvesse embargo e multa, certamente a área já teria sido completamente derrubada”.

Risco à pesca e à caça

O clarão na mata que fica na Fazenda Zampieri foi identificado pelos Kĩsêdjê pela primeira vez em abril de 2020. “Começamos a perceber a derrubada de árvores e ficamos preocupado porque se avançar o desmatamento, tem o risco de diminuição dos nossos recursos hídricos, dos peixes, dos animais que a gente caça”, afirma Winti Khisetje, representante da comunidade na TI Wawi, que foi uma das mais atingidas por incêndio no ano passado.

Os indígenas se depararam com o trecho desmatado pois visitam a área com frequência – laudos antropológicos comprovaram que a área da fazenda já foi ocupada pelos Kĩsêdjê no passado.

Imagens do satélite Planet/MapBiomas mostram a aberturas de estradas para lotear terrenos na fronteira com a Terra Indígena Wawi; Foto 1 tirada em 11/11/2019; foto 2 em 30/3/2020; foto 3 em 19/4/2020; foto 4 em 3/5/2020 (Fotos: MapBiomas)

Em maio, já com as imagens de satélite em mãos, os indígenas fizeram uma denúncia ao Ministério Público Estadual do MT e à Secretaria do Meio Ambiente do Estado. Juntamente com a Polícia Militar, o Instituto de Defesa Agropecuária do Estado do MT (Indea), bombeiros e Polícia Militar foram ao local e encontraram o desmate de vegetação nativa.

Por Marcelle Souza/ Repórter Brasil
Foto: Kamikia Kisêdjê/Repórter Brasil
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