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‘Encorajei minha tribo a se vacinar, é meu papel como cacique’, diz Uruma Kambeba

Por Kizzy Bortolo / Marie Claire

Francisco Uruma Kambeba, de 40 anos, é cacique da aldeia Tururucari-Uka, no Amazonas, e foi infectado pelo coronavírus no início da pandemia. Agora, enquanto a doença se espalha novamente na aldeia do povo Omágua/Kambeba, a 47 km de Manaus, ele comemora a chegada da vacina trazida por uma equipe de agentes de saúde.

“A vacina chegou na aldeia antes do que eu pensava. Ainda bem, porque, apesar de estarmos em um lugar de difícil acesso, no meio da floresta amazônica, pela segunda vez temos casos e suspeitas de coronavírus. Enfrentamos um verdadeiro caos.

Uma equipe com quatro agentes de saúde da cidade de Manacapuru veio nos vacinar, todos equipados com roupas especiais, luvas e máscaras. Chegaram de carro, porque nessa época os veículos têm acesso até a aldeia. No tempo de cheia do rio, só de barco. Quando vi o carro, foi uma felicidade só. Há muitos indígenas de outras aldeias morrendo por Covid-19. Ficamos com receio de acontecer o mesmo por aqui.

Para nossa alegria, foram vacinados 18 indígenas, começando pelos mais idosos. O resto da população é menor de idade e não pôde. Muitos por aqui estavam com medo de se vacinar, mas eu os encorajei e os incentivei. É o meu papel como cacique, esclarecer as dúvidas e encorajar o meu povo.

Na verdade, antes, eu também fiquei um pouco apreensivo e desconfiado. Mas depois foi de boa, fui relaxando. Quando chegou a minha vez de tomar a vacina foi tranquilo, não senti nada. Foi bem suave —  ou ‘chibata’, como costumamos dizer por aqui quando algo é bom e corre tudo bem. Falta a segunda dose que os agentes nos avisaram que será aplicada em 18 de fevereiro. Nesse dia, também vão dar a primeira dose a dois indígenas que estavam de cama.

Vacinação dos indígenas na aldeia do povo Omágua/Kambeba na aldeia Tururucari-Uka, no Amazonas

Além de cacique, sou agente de saúde indígena e cuido dos nossos doentes. Essa segunda onda veio muito mais agressiva e nos faz lembrar o que está acontecendo em Manaus, a duas horas de carro daqui. Na primeira onda eu cheguei a pegar o coronavírus, mas parece que ela foi mais leve. Agora os doentes reclamam de falta de ar, dor no peito e por todo corpo. Também sentem muita fraqueza.

Hoje temos quatro pessoas na aldeia infectadas. O médico de Manacapuru esteve aqui para tratá-los. Também usamos plantas para fazer chás e infusões.

As nossas fontes de renda, como o etnoturismo e a venda de produtos da floresta — mel, cupuaçu, derivados da mandioca, óleos vegetais e artesanato — estão todas paradas.  Estamos passando por muita dificuldades. Nem sempre o médico tem remédios para dar e não temos dinheiro para adquiri-los. Até começamos uma campanha na região para a compra de remédios e alimentos para todos”.

Fotos: Cacique Francisco Uruma

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