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A trajetória dos produtores rurais de Apuí e um novo café para a região

A evolução do Café Apuí Agroflorestal está diretamente vinculada à melhoria da qualidade de vida dos produtores rurais do município

 

 

Em 2006, quando o Idesam visitou Apuí pela primeira vez, uma realidade chamou a atenção dos pesquisadores: o grande número de produtores que estavam desistindo da produção de café no local devido à baixa produtividade e à impossibilidade de investimentos por conta da agricultura familiar.

A atividade deixou de ser rentável e muitos começaram a migrar para, o que acreditavam na época ser a melhor opção, a pecuária extensiva. Muitos hectares de plantações – e florestas – foram transformados em pasto e vários dos antigos cafezais  foram abandonados.

Quando voltaram aos antigos cafezais, alguns anos depois, os técnicos e pesquisadores do Idesam perceberam que muitos deles ainda estavam produtivos, principalmente os que foram sombreados por outras plantas e árvores que cresceram no local. A técnica do café sombreado, nesse período, já era conhecida, mas nunca tinha sido aplicada no local.

O Idesam começou a empreender esforços na elaboração de um projeto de produção de café em agroflorestas, na intenção de resgatar o interesse das famílias locais que ainda restavam no assentamento e associar a cafeicultura local à implementação de agroflorestas.

Assim surgiu, em 2012, o projeto Café em Agrofloresta, que ao longo dos anos seguintes conseguiu – com apoio de parceiros como Fundo Vale, Natura e a prefeitura local – beneficiar cerca de 60 famílias locais para a produção sustentável até hoje.

Os cafeicultores foram capacitados em vários aspectos da produção, desde adubação verde (quando o preparo do terreno é feito através do plantio e poda de outras plantas que fixam nitrogênio no solo), passando por armadilhas artesanais de pragas que evitavam o uso de agrotóxicos, até a construção de terreiros suspensos para a secagem dos grãos, que impactam diretamente na qualidade do produto enviado para a torrefação.

Para o então presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Manoel Fernandes, a proposta apresentada pelo Idesam de desenvolver  o projeto de forma colaborativa foi muito bem recebida e um dos maiores estímulos para o ingresso de vários produtores. “Dos nossos produtores, todos eles ficaram muito animados, porque estão vendo um trabalho que está sendo construído junto com eles. E com a chegada do Idesam, de estar junto dos produtores, eles só têm a ganhar”, explicou.

“Quando a gente veio para cá, a terra não era produtiva. A gente plantou café na terra de um outro tio meu, mas abandonamos lá e viemos pra cá, que era uma terra que já produzia, tinha outras lavouras. E então em 2012 veio essa possibilidade de trabalhar junto ao Idesam e estamos até hoje”

– Nilton Julião, produtor de café agroflorestal.

Maria Bernardete Silva também foi uma dessas produtoras que acreditou na iniciativa e explica o motivo: “Eu gosto muito de natureza, e quando cheguei no município fui aprendendo como fazer. Mas nunca tive ninguém pra me ensinar. Depois de muitos anos, veio um convite aqui na porta, era a chamada do Idesam pra fazer parte desse projeto de plantio de café. Hoje, nós estamos tirando trezentos latões, a gente tirava sessenta só, então pra mim é um passo bem grande”, celebra a produtora, que produz, na mesma área, banana pacovã, abóbora, entre outros produtos agrícolas.

O filho de Maria, Erivelto Silva, que também trabalha na produção da família, lembra do desânimo com a produção, na época. “O café tava bem maltratado, bem descuidado, porque a gente não tinha um auxílio e não entendia muito sobre isso”, relembra.

Ronaldo Carlos de Moraes é um dos produtores que participam do projeto e conta parte de sua trajetória. “Quando eu mudei pra cá [Apuí], mudou o processo de trabalhar com o café, e estava muito difícil se adaptar ao solo, às regras de produção local. E entrei nessa iniciativa do café agroflorestal, era um processo novo, mas todos começaram a perceber que era o melhor jeito de trabalhar e estamos até hoje ganhando dinheiro graças a esse trabalho realizado junto com o Idesam”, diz o produtor, que teve sua produção como protagonista de um estudo de caso da ONG internacional Conservação Estratégica, sobre o sul do Amazonas.

Em 2018, o café foi, finalmente, certificado com o selo de orgânico, em parceria com o sistema participativo de garantia da Rede Maniva. Mas, para que o selo chegasse à embalagem , todos os elos precisam estar certificados. O fortalecimento da parceria com o empresário local Estêvão Anghinoni foi essencial nessa etapa, uma vez que o objetivo do projeto era – e ainda é – fortalecer a economia municipal.

A gestora ambiental Marina Yasbek, que também é participante ativa da Rede Maniva de Agroecologia (Rema), lembra a trajetória traçada para a obtenção do selo.  “Além de tornar mais acessível algo que poderia ter um alto custo ao agricultor, com o sistema de certificação participativa, a certificação se torna uma ferramenta e não uma finalidade em si. Os produtores recebem capacitações, apoio de técnicos e de outros agricultores, um acesso maior a consumidores interessados pelo seu produto e a participação nas feiras organizadas”, diz a gestora.

Sem deixar a assistência técnica aos produtores de lado, mas com essa base de produção sustentável formada e bem estruturada, o Idesam tem trabalhado ainda em outro elo da cadeia do café agroflorestal que precisava ser fortalecido, a comercialização. Com apoio em marketing e logística, a instituição conseguiu garantir mais retorno financeiro aos produtores na medida em que o produto alcançou novos mercados, interessados no tipo de produção inovador implementado na região. 

Por meio da assessoria técnica e de gestão para as organizações sociais, associando a políticas públicas e conectando parceiros ao longo das cadeias de valor, queremos que os produtores rurais e extrativistas tenham maior retorno financeiro e que seus produtos cheguem ao mercado consumidor com maior valorização.

– Trecho retirado na Teoria da Mudança 2022 do Idesam

Foram mais alguns anos de trabalho, que permitiram até a criação de uma empresa exclusivamente para comercializar o produto e buscar novas oportunidades para o café de Apuí. O fortalecimento de todos esses elos permitiu que os produtores passassem pela pandemia de Covid-19 com menos prejuízos; o projeto produziu, em parceria com a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e o Ministério da Agricultura, uma série de videoaulas, com foco em mulheres e jovens.

A partir de 2022, com toda a cadeia do Café Apuí Agroflorestal alinhada, o Idesam iniciou um movimento com objetivo de dar maior escala a essa produção. Em uma recente parceria estabelecida com as empresas Mirova e Axcell, o projeto pretende expandir o grupo de produtores agroflorestais e orgânicos para mais de 300 produtoras e produtores rurais de Apuí, em cinco anos

“Cadeias de valor da sociobiodiversidade e como o café agroflorestal,  já existem nos territórios, mas por uma série de fatores, como a desarticulação entre os elos produtivos, os arranjos nem sempre permitem que as famílias consigam ter prosperidade nas suas atividades”, explica Marina, destacando que o objetivo do Idesam para os próximos anos é permitir que novas famílias apuienses colham os benefícios e resultados proporcionados pelas ações da iniciativa.

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